Tensões geopolíticas, vendas institucionais de grandes empresas como a BlackRock, declarações de políticos americanos e um sentimento generalizado de aversão ao risco são alguns dos fatores que têm pressionado o bitcoin, levando-o a uma queda de mais de 50% nos últimos quatro meses.
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Por volta das 21h20 da última quinta-feira, o “ouro digital” era cotado a US$ 60.074, representando uma queda de 17,43% em apenas um dia. Considerando os últimos quatro meses – desde 6 de outubro do ano passado, quando o bitcoin atingiu seu último recorde histórico, chegando a US$ 126.198,07 – a baixa acumulada ultrapassa os 50%.
De acordo com a plataforma CoinMarketCap, essa última queda é explicada principalmente pela redução da alavancagem em posições de compra, com US$ 1,23 bilhão em liquidações de bitcoin (80% em posições compradas), o que forçou vendas rápidas. As liquidações ocorrem quando o preço cai a um ponto em que a garantia de quem investiu com dinheiro emprestado em uma exchange se torna insuficiente para cobrir as perdas, acionando vendas automáticas para quitar a dívida.
Essas vendas em massa têm origem em um sentimento generalizado de aversão ao risco, associado a eventos econômicos e políticos. Um dos acontecimentos mais recentes foi uma declaração regulatória do Departamento do Tesouro dos EUA. A confiança institucional, em particular, foi abalada após comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que descartou a possibilidade de resgates governamentais ou bancários para as criptomoedas.
Essa recusa em oferecer uma rede de segurança influenciou investidores mais conservadores e desencadeou uma onda de vendas institucionais, intensificando o sentimento de baixa já existente.
Ligação com contexto político e econômico
Especialistas concordam que as liquidações em massa estão ligadas ao contexto político e econômico. Para a analista financeira Mariel Lang Saez, “a correção de 50% não é uma anomalia no mercado de criptomoedas, mas sim um reflexo de fatores macroeconômicos amplificados”. Segundo a especialista, ao contrário de ciclos anteriores, o bitcoin agora está integrado ao sistema financeiro tradicional, o que significa que os mesmos ETFs e fluxos institucionais que impulsionaram o recorde histórico de US$ 126.000 também aceleram a queda quando o apetite por risco diminui.
Julián Colombo, diretor da Bitso para a América do Sul, acrescenta alguns dados contextuais que também influenciaram a queda do bitcoin:
— Por um lado, a regulamentação de criptoativos enfrenta tensões internas nos Estados Unidos, com bancos e outros atores tradicionais do sistema financeiro atrasando a implementação. Soma-se a isso o debate em torno da Clarity Act, lei que visa regular os aspectos gerais dos criptoativos no país. Tudo isso, combinado com a incerteza em relação aos indicadores econômicos dos EUA e outros impactos globais, como a possível intervenção no iene japonês, contribui para impulsionar a queda.
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Carolina Gama, country manager da Bitget na Argentina, explica que o bitcoin se tornou mais correlacionado com os mercados tradicionais, especialmente com o S&P 500 e ações de tecnologia.
— Seu desempenho tem respondido significativamente ao tom do Federal Reserve (Fed): embora tenha havido cortes de juros nas últimas reuniões de 2025, a comunicação permaneceu cautelosa, moderando o apetite por risco. Mais do que um sinal negativo, isso reflete que o bitcoin foi incorporado como um ativo dentro do universo de investimento institucional, diferente da bolha em que existia até recentemente, sem conexão com o mercado financeiro em geral — interpreta Gama.
Por que o bitcoin caiu tanto?
Após atingir seu recorde histórico no final do ano passado, os meses seguintes trouxeram uma queda cada vez mais acentuada. O pico de outubro durou apenas quatro dias. No dia 10 daquele mês, Trump anunciou tarifas de 100% sobre a China e o “ouro digital” caiu de US$ 122.000 para US$ 104.782 em questão de horas.
Segundo Lang Saez, naquele dia foram liquidados US$ 19,13 bilhões em posições alavancadas — entre dez e 20 vezes mais do que durante a pandemia de Covid-19 ou o colapso da FTX — tornando-se o maior evento de desalavancagem da história das criptomoedas.
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Lang Saez acrescenta que o Fed cortou os juros três vezes em 2025 — de 4,25% para 3,50% e, depois, para 3,75% —, mas o presidente da instituição, Jerome Powell, indicou em 28 de janeiro que não há pressa para novas reduções. Além disso, a liquidez global também piorou, o que tradicionalmente leva muitos investidores a se refugiarem em ativos considerados menos arriscados. A especialista explica que as tarifas impostas por Trump fizeram com que capitais institucionais preferissem o ouro como um porto seguro, em vez do bitcoin.
Apesar disso, a forte retração do ativo em apenas quatro meses não chega a preocupar quem aposta no “ouro digital” há muito tempo:
— Para quem tem paciência e visão de longo prazo, o bitcoin continua sendo uma excelente opção de investimento — afirma Gama, explicando que, apesar da volatilidade de curto prazo, o ativo mantém fundamentos sólidos.
Ao mesmo tempo, ela destaca que “esse tipo de correção não é incomum no ciclo do bitcoin, já que houve quedas de 93% em 2011, 84% em 2015, 83% em 2018 e 76% em 2022, seguidas por recuperações significativas”.
Bitcoin se comporta em ciclos
Colombo explica que o bitcoin costuma se comportar em ciclos, com momentos de queda e outros de alta. Acrescentando que, após um pico, o ativo geralmente reduz seu valor até encontrar um ponto de resistência, algo que, em sua opinião, ainda não se consolidou. Ele também ressalta um detalhe importante:
— Este ciclo do bitcoin tem uma particularidade: diferentemente de outros, que eram mais voltados ao varejo ou a investidores individuais, este é mais institucional, o que faz com que fatores políticos também tenham peso, impulsionados principalmente por decisões dos EUA, tanto em termos de regulamentação quanto em outros aspectos do governo de Donald Trump.
Na Bitget, a recente queda do bitcoin também é interpretada mais como uma fase de reajuste do mercado do que como um colapso estrutural. A empresa concorda com Colombo ao apontar que parte da pressão imediata vem de vendas institucionais: os ETFs à vista de bitcoin nos EUA registraram saídas relevantes desde outubro, com mais de US$ 7 bilhões em novembro, cerca de US$ 2 bilhões em dezembro e mais de US$ 3 bilhões em janeiro. Gama explica que isso reduziu a liquidez e deixou o ativo mais exposto a movimentos bruscos no curto prazo.
Ao mesmo tempo, Lang Saez alerta que, apesar das saídas, “os ETFs ainda detêm 1,27 milhão de bitcoins, apenas 5% abaixo do máximo. A base institucional de longo prazo não foi desmontada. Estão no prejuízo, mas não foram embora”. De fato, ela destaca que cerca de 200 empresas de capital aberto compraram aproximadamente US$ 96 bilhões em bitcoin ao longo de 2025.
Enquanto o preço apresenta uma correção profunda no curto prazo, muitos analistas continuam vendo no bitcoin um ativo cuja força reside, sobretudo, no longo prazo.
— As correções são cíclicas e saudáveis. Se observarmos sua evolução nos últimos 10 anos, fica claro que é um ativo que soube se valorizar de forma consistente — conclui Colombo.
