Muitos de nós temos hobbies ou frustrações que poderiam ser resolvidos com um programa personalizado, embora poucos dominem as competências de programação necessárias para criar algo funcional.
Os recentes avanços na inteligência artificial permitem, no entanto, que qualquer pessoa construa aplicações móveis e websites simplesmente descrevendo uma ideia em linguagem corrente.
Para demonstrar como as ferramentas de programação baseadas em IA podem dar vida a ideias, o The Washington Post questionou leitores e colegas sobre que tipo de aplicação gostariam que existisse. Eis a sugestão de um leitor:
- Após 20 segundos a escrever no Claude Cowork, uma nova ferramenta da empresa de IA Anthropic, o sistema trabalhou durante alguns minutos e apresentou um website funcional e visualmente apelativo para organizar conteúdos multimédia. Funcionava no computador, mas não no telemóvel, pelo que pedi ao Claude: “Faz com que funcione em telemóvel.” Minutos depois, surgiu esta aplicação web totalmente operacional. Esta aplicação não está prestes a tornar-se numa empresa avaliada em mil milhões de dólares. Consegue guardar a tua coleção, mas apenas se entrares a partir do mesmo computador ou telemóvel. Quem não tenha conhecimentos técnicos poderá ter dificuldades em torná-la acessível na Internet. Ainda assim, a facilidade com que é possível criar uma aplicação funcional demonstra como as ferramentas de IA transformaram a programação.
Para a maioria das pessoas, o ChatGPT, da OpenAI, e os seus rivais continuam a ser motores de busca sofisticados — úteis para tarefas como recolher informação ou resumir documentos, mas ainda longe de assumir projetos completos sozinhos. (O The Washington Post mantém uma parceria de conteúdos com a OpenAI.)
Essa distância está a diminuir rapidamente no caso dos programadores, porque os sistemas de IA conseguem agora gerar os mesmos comandos de texto que os profissionais utilizam para executar tarefas. Isto significa que as ferramentas de IA podem desenvolver software, manipular dados e automatizar processos que antes exigiam conhecimentos de programação.
O Claude Code, projeto lançado no ano passado pela Anthropic, exemplifica esta evolução. A ferramenta funciona na linha de comandos, a interface textual tradicional que dá aos programadores acesso direto ao funcionamento interno dos computadores. Pode escrever código repetidamente, executá-lo, detetar erros e corrigi-los, sem necessitar de intervenção humana em cada etapa.
Os programadores adotaram rapidamente o Claude Code e ferramentas semelhantes, utilizando-as para acelerar tarefas que antes demoravam horas. Por exemplo, converter software de uma linguagem de programação para outra era um processo moroso e exigente. Há quem relate ter concluído esse trabalho numa única tarde com recurso à IA.
Em Janeiro, a Anthropic lançou o Claude Cowork, que também escreve código e executa ações num computador, mas com uma interface mais acessível, pensada para quem não utiliza a linha de comandos. A empresa apresentou ainda extensões destinadas a aumentar a produtividade em áreas como design, finanças, recursos humanos, direito e marketing. Muitos destes anúncios provocaram quedas em bolsa de empresas que desenvolvem software para esses setores, numa reação de investidores que receiam novas ameaças aos seus modelos de negócio.
A programação com IA pode igualmente trazer benefícios pessoais significativos. Eliot Peper, autor de ficção científica e surfista entusiasta, queria uma aplicação de previsão de ondas adaptada às condições específicas da sua zona.
“Todo o surfista a sério é, basicamente, um meteorologista amador”, afirmou, explicando que analisa dados de bóias, previsões de vento e mapas do fundo do mar para decidir onde surfar. “Onde posso encontrar ondas hoje?”
Segundo disse, a principal aplicação de previsão de surf é inadequada para a sua região. Refinou então as suas ideias com um chatbot e pediu ao Claude Code que construísse a aplicação. O resultado, Dialed, apresenta numa única página os dados exatos que pretende consultar. Assim que teve uma primeira versão, surgiram-lhe inúmeras alterações e melhorias — “o que é muito semelhante ao meu processo criativo quando escrevo um romance”, explicou.
Peper não sabe programar. Com a ajuda do Claude, a aplicação está disponível na App Store e já conta com mais de 100 utilizadores.
Num aparente paradoxo, as ferramentas de programação com IA podem acabar por reforçar a importância do fator humano.
“Se estás a criar algo para outras pessoas, tens de compreender o que elas querem ou valorizam”, disse. “Atingir esse nível de intimidade com as razões pelas quais estás a fazer algo para os outros… torna-se muito mais valioso do que antes.”
Um colega sugeriu que o The Washington Post criasse uma aplicação para ajudar pais a registar os presentes oferecidos aos filhos.
Minutos depois, o Claude apresentou um website com essa funcionalidade. O surgimento destas ferramentas tem provocado entusiasmo, mas também apreensão entre programadores profissionais.
Nos últimos anos, o código gerado por IA já fazia parte do quotidiano de muitos programadores, mas exigia revisão humana cuidadosa e implementação manual. Desde o lançamento do Claude Code, no final do ano passado, as ferramentas tornaram-se mais autónomas e fiáveis.
“Era sempre uma surpresa” quando funcionava à primeira, afirmou Simon Willison, engenheiro de software que testa ferramentas de programação com IA há vários anos. “Agora é o esperado.”
Willison considera que a transformação na programação pode antecipar mudanças noutras profissões baseadas no conhecimento.
“O que está a acontecer na engenharia de software nos últimos dois meses provavelmente vai estender-se a advogados, contabilistas e outros profissionais que trabalham com informação”, afirmou. Se mais pessoas começarem a desenvolver software para responder às próprias necessidades, a tecnologia do dia-a-dia poderá tornar-se muito mais personalizada.
Peper contou que surfistas de outras regiões lhe pediram para acrescentar as suas localizações à aplicação. Mas, segundo explica, o que torna a aplicação eficaz é precisamente o seu caráter hiperlocal. Foi construída à sua medida, com base no conhecimento específico da sua zona de surf. E incentiva outros a fazer o mesmo.
“É quase o oposto da abordagem tradicional ao software”, afirmou. “Em vez de querer ser a Amazon, quero ser uma livraria independente muito querida, perfeita para o teu bairro.”
