Cristiane Macedo | Agência FAPESP – Pesquisadores demonstraram em testes iniciais que é possível desenvolver cosméticos ecológicos, como cremes faciais, bastões em gel e xampus, utilizando um corante natural produzido pelo fungo Talaromyces amestolkiae, encontrado na região amazônica. O extrato apresenta ação antioxidante e antibacteriana.
A descoberta é relevante, pois corantes microbianos – ainda pouco explorados na pesquisa cosmética – podem representar uma alternativa sustentável aos corantes sintéticos. O fungo produz uma variedade de cores vibrantes, do vermelho ao amarelo, com alto potencial para aplicações industriais. A crescente restrição e proibição de certos corantes sintéticos, associados a alergias e problemas de saúde, tem impulsionado a demanda por produtos ecologicamente corretos e saudáveis.
Os dados indicam que o extrato conseguiu reduzir em mais de 75% as substâncias que reagem com o oxigênio ao entrar em contato com a pele, diminuindo assim compostos que podem causar danos celulares. Além disso, os testes revelaram que mais de 60% das células permaneceram viáveis, indicando que o produto não compromete a saúde da pele.
Os resultados da pesquisa foram publicados na revista ACS Ômega.
O estudo foi liderado por Juliana Barone Teixeira, com orientação de Valéria de Carvalho Santos-Ebinuma, ambas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (FCFAr-Unesp), campus de Araraquara, em colaboração com Joana Marques Marto, da Universidade de Lisboa.
A pesquisa também contou com a participação de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) e recebeu apoio financeiro da FAPESP, através dos processos 23/13069-0, 23/01368-3, 24/19904-1, 24/16647-8, 24/16477-5 e 21/06686-8.
“Demonstramos que este corante pode ser aplicado em formulações cosméticas mantendo a segurança, funcionalidade, textura e desempenho, sem impactar a formulação ou a experiência do consumidor”, afirma Teixeira, primeira autora do estudo.
“A cor foi o que inicialmente chamou a atenção para este fungo. A partir daí, iniciamos uma série de estudos que duraram mais de dez anos até chegarmos a esta etapa de produção”, relata Ebinuma.
As pesquisadoras destacam que estudos de marketing indicam a cor como um fator crucial na decisão de compra, influenciando as emoções dos consumidores.
“Buscamos um parceiro com experiência em cosméticos, e a professora Joana da Universidade de Lisboa nos auxiliou com diferentes formulações”, explica Ebinuma.
“Nem todos os microrganismos são prejudiciais à saúde. Alguns produzem compostos benéficos. A biotecnologia, que utiliza seres vivos ou seus componentes para o benefício da sociedade, tem crescido significativamente”, ressalta a pesquisadora.
“Em vez de avaliar o corante isoladamente, estudamos sua aplicação dentro de uma formulação completa, considerando todos os aspectos de um produto final”, enfatiza Teixeira.
A descoberta
Segundo Ebinuma, os estudos com o fungo Talaromyces amestolkiae começaram durante seu doutorado, quando conheceu a professora Maria Francisca Simas Teixeira, curadora da Coleção de Culturas do Departamento de Parasitologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), uma referência em micologia no país, que faleceu no ano passado.
Foi a professora Teixeira, com seus alunos, quem encontrou o fungo nas árvores do campus e o adicionou à sua coleção. Desde então, a espécie T. amestolkiae tem despertado interesse devido à sua capacidade de produzir corantes que variam do amarelo ao vermelho.
“Ao iniciarmos os estudos, observamos a produção de coloração vermelha. O fungo é encontrado na natureza, mas prospera em condições específicas, como as altas temperaturas de Manaus. Simulamos, então, uma temperatura próxima à de Manaus para induzir a produção do corante vermelho em laboratório”, explica Ebinuma.
A professora destaca a importância de continuar pesquisando espécies nativas, pois a biodiversidade amazônica ainda guarda muitos segredos. “É possível que existam outras espécies com características semelhantes”, comenta a cientista.
Próximos passos
Atualmente, cerca de 20 estudantes de graduação e pós-graduação estão envolvidos nos estudos do grupo de pesquisa. Alguns trabalhos buscam entender a aplicação do corante em tecidos ou alimentos, como gelatinas. “Temos diversas áreas de pesquisa relacionadas a este fungo e também estamos investigando outros”, conta Ebinuma.
Um dos principais objetivos é otimizar o processo de produção do corante. “Atualmente, produzimos 1 grama do corante, mas almejamos alcançar 10 gramas. Estamos buscando o caminho para aumentar a produção, o que envolve uma rede de alunos e professores”, diz a pesquisadora.
O artigo Redefining red: Microbial polyketides in eco-friendly cosmetic development pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c10255.
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